Solistas e “Concerto das Nações”
Recentemente fui convidado para abrir um debate sobre Portugal, a Europa e a Agenda Internacional do Desenvolvimento, no quadro mais vasto de uma sessão do Conselho Estratégico do Partido Socialista sob o tema – Para além do PIB: Portugal na agenda internacional do desenvolvimento.
Abordar estes temas nos tempos em que vivemos, exige um olhar mais focado em valores e convicções fortes do que em axiomas ideológicos, dado que o concerto das nações (conceito criado no Europa do século XIX para tentar através da diplomacia entre as grandes potências preservar o equilíbrio e a estabilidade no Continente e que em certa medida inspirou a criação da Comunidade Económica Europeia, da Sociedade das Nações e mais recentemente da Organização das Nações Unidas), se transformou numa cacofonia perigosa e em permanente mutação.
Em função disso comecei por salientar que sem dispensar as lições do passado e o conhecimento acumulado, a concretização de agendas para o futuro depende mais da rede de apoio que as suporta, com base em perceções comuns, do que do mérito intrínseco daquilo que nelas é versado.
Neste contexto, embora o crescimento continue a ser importante, a sua medição através do PIB (Produto interno Bruto) mascara realidades muito diversas e em particular os níveis de desigualdade. Os trabalhos desenvolvidos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) para criar um ranking baseado na qualidade de vida das pessoas em concreto, abre novas portas para uma abordagem baseada nas pessoas e não nos números.
Chegar ao poder em democracia implica mobilizar mais votos e isso só se consegue se as pessoas acreditarem que vão viver melhor com a proposta política que lhes é feita. Por isso as agendas agregadas como a Agenda 2030 das Nações Unidas ou os Objetivos do Milénio, ferramentas com que trabalhei muito enquanto Eurodeputado, enchem os colóquios e as revistas científicas, mas passam ao lado do debate quotidiano.
Na opinião que partilhei no debate e que aqui reproduzo a orquestra só tocará diferente se os solistas se unirem conscientemente para isso. A agenda internacional do desenvolvimento começa na cabeça de cada cidadão livre, ou seja, com acesso às condições básicas da cidadania; Habitação, educação, literacia, empoderamento e responsabilização. Não há concerto das nações com solistas alienados dos destinos da sua comunidade e do destino no mundo. Esta é a minha convicção e a partitura que sigo diariamente como humanista e progressista que procuro ser.