Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

Alentejo mais pobre?

O final de 2025 foi marcado na nossa região pelo debate gerado pela divulgação de um estudo do Instituto Nacional de Estatística (INE) que revelou, com base em dados do ano anterior, que 15% da população portuguesa (cerca de 1,7 milhões de pessoas) vive abaixo do limiar de pobreza (725 Euros por mês). O estudo revelou ainda que o Alentejo passou a ser a Região onde há mais probabilidade de encontrar pessoas a viver com rendimentos abaixo do limiar de pobreza, liderando o ranking das regiões com maior incidência desse problema social.

São indiscutivelmente más notícias, mas que não sustentam o título sensacionalista do semanário “Expresso” depois replicado em muitos órgãos de comunicação social, nas redes e nas conversas do quotidiano.

Titulava o Expresso que a o “Alentejo se tornou a região mais pobre de Portugal”. É falso. Quanto muito, e embora numa análise simplista, poderia ter escrito que o Alentejo se tornou a região com mais percentagem de pobres na sua população total, o que é algo bastante diferente.

Em termos de rendimento per capita o Alentejo supera a Região Norte, Centro e Açores. Podemos concluir que somos pobres em justiça social, a riqueza que produzimos está muito mal distribuída e temos uma percentagem inaceitável de pessoas a viver com rendimentos muito baixos, mas não somos a Região mais pobre de Portugal. Somos sim, a menos equitativa na distribuição da riqueza criada.

Esta constatação não retira importância ao debate e à necessidade de agir. Antes pelo contrário. Uma região em risco de ser “estatisticamente” considerada rica pela alteração do desenho das Unidades Territoriais para efeitos de acesso aos fundos europeus, não pode conviver passivamente com a mais alta incidência de pobreza nos cidadãos que nela vivem.

O debate que animou o final de 2025 tem que se transformar em ação concreta em 2026. É fundamental garantir a correção da entorse estatística decorrente da alteração do desenho das unidades de planeamento, no quadro do desenho do Quadro Comunitário de Apoio pós 2027 e é determinante aplicar os recursos disponíveis na região com maior sensibilidade, combinando competitividade, atratividade e equidade no acesso às oportunidades e ao rendimento.

Nada disto é novo. Foi combinando estes pilares que as regiões europeias mais bem-sucedidas fizeram o seu caminho. Coesão e convergência não podem ser conceitos tecnocráticos e generalistas. Têm que chegar à vida concretas das pessoas. O reverso gera pobreza, mesmo onde há riqueza que basta para todos poderem viver melhor.

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