Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

Milei

Num momento em que Portugal mergulha de novo numa campanha eleitoral com umas eleições legislativas que pela sua data são também uma celebração do cinquentenário da democracia, o fenómeno populista vai continuando a minar as instituições e a corroer as sociedades livres um pouco por todo o mundo.

Depois dos defensores de democracias sólidas e representativas, em que me incluo, terem celebrado as derrotas nas urnas de populistas extremos como Donald Trump ou Jair Bolsonaro, eis que a Argentina, terra de magia e de magos no Futebol e em tantas outras artes e saberes, decidiu também através do voto alcandorar à presidência um personagem esdrúxulo gerado nas redes de conspiração, com um discurso messiânico, que se propõe, entre muitas outras medidas, fechar o banco central e usar a moeda americana.

A consternação que aqui partilho é certamente partilhada por muita gente, mas dela nada resultará se não compreendermos as causas e as tentarmos combater. Como muitos comentadores realçaram, face à situação económica vivida hoje pela Argentina, os eleitores foram colocados perante a escolha entre a desesperança ou o abismo (e preferiram o abismo).

Duas questões se colocam desde logo. Como foi possível que a sociedade argentina se tivesse deixado fraturar de tal forma, que na segunda volta das eleições, os eleitores apenas pudessem ter como escolha o velho “peronismo desgastado” ou o velhíssimo “anarquismo alucinado”?  E tendo sido possível, como é que os eleitores, com um peso forte dos jovens, preferiram o salto no escuro num País cujos indicadores de desastre económico e social são assombrosos.

A minha perspetiva é que tudo só é explicável à luz dos novos fenómenos da desinformação massiva e da criação de realidades virtuais através das redes e dos grupos organizados na nuvem (ou nas nuvens). Nesses círculos o abismo é um espaço de construção de todas as utopias e distopias. Um contexto onde todas as ficções são possíveis.    

O que antes escrevi explica também o carrossel dos populismos. Quando não capturam a democracia, raramente subsistem mais do que um mandato, mas rapidamente se reinventam. 

Milei tem uma fraca representação no Congresso e no Senado Argentino e os danos das suas politicas poderão ser mitigados. No entanto, enquanto a democracia não se reinventar ela própria para os novos tempos, passará o tempo a jogar à defesa. Isso tem que ser mudado. Também em Portugal, com a urgência necessária para sobreviver aos pleitos que se aproximam, no tempo histórico do cinquentenário de abril.

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