Polarização e Liderança
É cada vez mais consensual que o mundo em que vivemos é marcado pela polarização. Um mundo polarizado não tem que ser necessariamente radicalizado entre dois polos, mas esse é o cenário que tem vindo a conquistar cada vez mais espaço. Quem não se polariza num registo de fratura com um polo antagónico arrisca-se a ser condenado à irrelevância no espaço público e na geopolítica global. Esta tendência está a corroer o projeto europeu e também a designada democracia liberal.
Há, no entanto, um outro modelo de polarização bem mais saudável e sustentável. Se os polos se multiplicarem e estruturarem em redes colaborativas ou competitivas no quadro de regras articuladas, dão origem a uma multipolaridade saudável que acolhe o princípio chave da diversidade com base em valores partilhados.
Nesse cenário multipolar o radicalismo extremista não se constitui em caminho único. A moderação ganha espaço. Criam-se novas opções e novos caminhos de intervenção. É possível, entre outras escolhas, lutar por um polo radicalmente moderado. É esse combate, que pessoalmente assumo no meu quotidiano, que gostava que a União Europeia e o meu País também fizessem, aceitando sem acrimónia o preço dessa opção.
O fenómeno que antes descrevi é fortemente agudizado pela multiplicação e aceleração do impacto das redes sociais e pelo imediatismo prevalecente nos meios de comunicação em linha. A modificação dos tempos de reação leva a que cada facto conhecido gere uma maioria de posicionamentos rápidos e sem reflexão prévia, favorecendo o entrincheiramento de cada um na sua tribo.
Uma das consequências da alteração da textura do espaço público e das dinâmicas políticas é a generalização de que já não existem políticos como antigamente. Figuras de referência, capazes de marcar a agenda e liderar transformações estruturais por entre a ondulação das marés.
Com mais de 50 anos de participação cívica e política ativa, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, com maior ou menos proximidade, grandes líderes políticos locais, regionais, nacionais e internacionais. Assisti e continuo a assistir também à transformação das características prevalecentes naqueles que tem sucesso na conquista e no exercício da política. Tal como o “hábito” faz o monge, a polarização faz os líderes que temos. Não são melhores nem piores do que os de outros tempos. Os tempos é que são outros, e cabe a cada um de nós ajudar a torná-los menos polarizados e radicalizados.