Tempestades Sem Rede
As plataformas científicas mais credíveis e os peritos mais consagrados atribuem o agravar de fenómenos climáticos extremos, como o comboio de tempestades que tem assolado Portugal, às perturbações causadas pelo aquecimento global, induzido pela poluição e em particular pela emissão cada vez maior para a atmosfera de gases com efeitos de estufa.
Neste domínio, a visão predadora revigorada por Donald Trump e pela sua prática extrativa em relação ao bem comum, retirou as preocupações com a sustentabilidade dos ecossistemas e com a transição verde, da primeira linha das notícias, dos discursos e das preocupações das comunidades. A Natureza, contudo, não perdoa. Contra factos não há argumentos. Estamos cada vez mais expostos a catástrofes naturais.
Escrevo este texto quando ainda se mantem o carrossel de tempestades que assolou Portugal e em particular o seu litoral centro. Lamento os danos pessoais e materiais sofridos e endereço a minha solidariedade a todos os lutaram e continuam a lutar contra a adversidade.
O facto de ter sido Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Administração Interna entre 2000 e 2002, com funções delegadas da Proteção Civil e do Socorro e de ter agora funções de proximidade como Presidente do Município de Évora dão-me particular sensibilidade para olhar para as calamidades naturais ou delas decorrentes, designadamente fogos, cheias, derrocadas e até a queda da ponte Hintze Ribeiro (Entre-os Rios), da qual este ano se assinala o 25º aniversário.
O que está a acontecer por todo o País perante as tempestades violentas evidencia duas linhas evidentes. Em primeiro lugar, a solidariedade desponta nas comunidades perante a tragédia. Em segundo lugar, a rede local funciona, mas a rede de apoio central voltou a colapsar de forma estridente.
Não é a primeira vez que o escrevo, mas a minha experiência de vida obriga-me a repetir este testemunho. Quanto tive funções de coordenador da Proteção Civil e do Socorro, além da confiança total do Primeiro – Ministro (António Guterres) e do Ministro (Nuno Severiano Teixeira) e da entrega total dos agentes no terreno, contei sempre com o apoio decisivo da rede de Governadores Civis que no território articulavam a resposta integrada do Governo. A sua extinção foi uma das mais demagógicas e injustificadas decisões políticas deste século. Devia ser revertida.
As calamidades são predadoras onde quer que aconteçam. Sem rede, multiplicam a destruição, a dor e o sentimento de abandono das populações.