Mortos Vivos
De repente gerou-se o pânico com a possibilidade enunciada por um dos mais conhecidos “gurus” do desenvolvimento da Inteligência Artificial Generativa (IA), Jacob Coxon, (ex- OpenAI e Anthropic) de que a profusão, interação e sofisticação dos modelos de linguagem, podem aniquilar e extinguir a humanidade numa década.
Com toda a precaução, que o facto de estarmos perante dinâmicas disruptivas aconselha, penso que o anúncio da morte da humanidade é muto exagerada. Mais importante é tratar da qualidade e do sentido da vida que vamos viver com uma ferramenta cada vez mais potente a fazer parte do nosso quotidiano.
Ao abordar este tema existe sempre um risco de ser repetitivo, mas tenho que o ser para fundamentar as minhas convicções. Doutorado em Gestão da Informação acompanhei enquanto académico as dinâmicas da transição digital. O mesmo fiz na minha vida política, em particular como líder o Plano Tecnológico e como Deputado no Parlamento Europeu. Neste último, envolvi-me a fundo como Relator do Regulamento dos Mercados Digitais (DMA – Digital Markets Act) e membro da “Task Force” do Grupo dos Socialistas e Democratas que negociaram o Regulamento Europeu para a Inteligência Artificial (EU AI ACT).
Sempre entendi, e entendo, que a forma com que temos que lidar com a aceleração da transição digital, ou com a sua disrupção, não pode ser exclusivamente tecnológica, com maiores ou menores impulsos ou travagens em função das oportunidades ou dos riscos latentes. Pelo contrário, deve ser primeiro que tudo filosófica e baseada na capacidade dos indivíduos em estarem um segundo à frente da máquina para a usarem e não caírem um segundo atrás dela para não terem, em consequência, de a servir.
Se perdermos a batalha da educação, da qualificação e da motivação das pessoas, individualmente e na sua interação com os outros, enquanto seres capazes de imaginar com conhecimento e sonhar com convicção, liderando o poder de determinar o que é a vida consciente e seu sentido, então mesmo que a IA não nos mate, tornar-nos-á em seguidores amorfos de padrões que não escolhemos. Seremos mortos vivos. A morte física não se verificará, mas a hecatombe da vontade e do controlo será tremendamente maléfica e castradora.
No entanto, se formos capazes de preservar um sentido aberto, lúcido, ético e espiritualmente robusto da existência, a Humanidade não perecerá com a IA e a vida será tão boa quanto a sonharmos, imaginarmos e determinarmos fazer.