Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

A Fonte

As transições de ano são tempos propícios à reflexão, ao balanço e à prospetiva. No plano pessoal quase todos esperam e desejam que esses momentos simbolizem uma mudança positiva nas suas vidas e que os seus objetivos fiquem mais próximos de se realizarem.

No plano da humanidade e do seu futuro instalou-se no primeiro quartel do século XXI um pessimismo crescente, contrastante com o admirável mundo novo que todos os dias nos é projetado pela aceleração tecnológica e pelo alargado manancial de ferramentas que brotam do processo e prometem resolver tudo e mais alguma coisa com que nos deparamos na vida do dia a dia.

O rasto da aceleração da forma de viver destapou a fragilidade de algumas subculturas que cresceram sobretudo nos ecossistemas urbanos e suburbanos, como as culturas de cancelamento e de submissão aos padrões do racionalismo absoluto, elevados ao altar de definidores do sentido da vida.
Sinto (E imaginar e sentir é algo que não devemos delegar nas ferramentas tecnológicas que em tantas outras coisas nos facilitam a vida) que 2026 será um ano de recomeço, não apenas porque nos termos da numerologia inicia um novo ciclo de nove anos e é também o primeiro ano do segundo quartel do século XXI, mas sobretudo porque a aridez dum mundo em que a espiritualidade é convidada à clausura ou ao refúgio se começa a tornar insustentável e se vê rejeitada por cada vez mais gente, com particular significado pelas novas gerações.

O que sinto e intuo não é uma contraposição entre a evolução científica e tecnológica por um lado e o regresso do ser enquanto foco matricial da leitura do mundo e da sua fruição e transformação por outro. Antevejo e desejo uma fusão progressiva das duas dimensões, cada uma delas dando mais cor, diversidade, desafio e sentido, ao extraordinário ato de existir pela consciência, pela vontade e pela partilha da vida em comunidade.

Não faz sentido aceitar a tecnologia como grande juiz da evolução da humanidade, num sentido mais materialista e subjugado ao poder, ou num sentido mais espiritual e inspirado no ser. Não estamos condenados a substituir o pensamento único duma economia de mercado pelo pensamento único duma sociedade de dados. A fonte de todas as coisas está em cada um de nós. Está naquilo em que acreditamos, na vontade que nos move e no regresso urgente ao leme do que queremos que seja o mundo em que vivemos, em que vamos viver e que vamos legar às gerações vindouras.

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