Banalização ( A Intoxicação da Democracia)
A democracia está em crise. Um pouco por todo o mundo, do seu regaço nascem regimes autoritários, filhos da informação e da desinformação cada vez mais tecnologicamente aceleradas e usadas para que os cidadãos não tenham tempo de tomar consciência da realidade, avaliar opções e fazer escolhas ponderadas.
A democracia está intoxicada pela banalização. Todos assistimos em Portugal e no mundo à forma como sistematicamente o carrossel de notícias sobre uma catástrofe, uma guerra, uma revolução, uma fraude ou uma simples informalidade consegue ir desgastando o tema até o tornar banal, irrelevante, desinteressante para as audiências e esquecido pelos eleitores no momento de votar ou até de influenciar os estudos de opinião que moldam as perceções do poder.
Já houve um tempo em que fazia sentido alertar para a banalização e a desinformação violenta como instrumentos de um ataque organizado à democracia no mundo. Esse tempo já passou. Estamos noutro patamar.
Hoje é a própria democracia que está capturada pelos métodos que antes foram usados contra ela. A banalização lava mais branco e poucos resistem ao uso do novo detergente que apaga nódoas politicas como nenhum outro produto.
Quando partilho estas inquietações com colegas e amigos que comigo fizeram longas caminhadas em defesa dos valores da liberdade, da igualdade de oportunidades, da justiça social e da participação cívica, sinto uma grande convergência no diagnóstico e uma grande impotência em contribuir para a solução. “Vamos deixar de ver notícias” é sempre a resposta mais óbvia que encontro.
Deixar de ver notícias é desistir. O que os democratas convictos precisam é de resistir e não de desistir. Continuarem imersos no mundo tal como ele é e conseguirem manter a lucidez para interpretar, construir redes e conexões saudáveis, agir e transformar.
É mais fácil delimitar e descrever o vírus que contaminou e intoxicou a democracia do que desenhar um caminho de desintoxicação que não signifique abandono. Sempre adorei tertúlias, conversas soltas e desconversas alegres, e sinto que elas são um último reduto para manter vivos os partidos, os movimentos, os grupos de ideias e de cidadania e o ADN do diálogo aberto e democrático, mas até as tertúlias são cada vez mais difíceis de combinar, mesmo que sejam online. Restam as plataformas assíncronas de partilha que crescem como cogumelos, mas que não me demonstram o poder de desintoxicação que a democracia exige.
Em boa verdade mais vale continuar a ver notícias com a consciência que a banalização não é um acaso ou uma ingenuidade. É um inimigo a combater e a democracia merece mais um bom combate de quem sempre combateu por ela.