Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

Construtores de Mundo

“Construtores de Mundos” é o título de um livro de referência publicado em junho de 2025 por Bruno Maçães na editora Temas e Debates. Aproveitando a época estival que agora se esvai, tive o impulso de voltar a folhear o texto de Maçães, curioso para verificar se a sua inspiradora análise tinha resistido a um ano de mudanças disruptivas no mundo em que vivemos.

Tinha lido o livro na perspetiva do seu subtítulo, “A tecnologia e a nova geopolítica”. Nessa perspetiva o autor desenvolveu uma abordagem muito inovadora sobre como as perceções criadas com as novas tecnologias e em particular com os modelos de linguagem e a desinformação criam novos “territórios” e modificam a abordagem das relações entre países e regiões, tornam fluidas as alianças e as parcerias e radicalmente instáveis os pilares da política global.

Sei, desde os primórdios da minha formação inicial, que a observação do objeto depende da posição do observador, do seu ângulo e da sua perspetiva de observação. O que as novas tecnologias estão a fazer é descolar o objeto do domínio do real para a dimensão da perceção do real. Criam novos territórios virtuais e voláteis em que tudo ou quase tudo se joga.

Sendo agora Presidente da Câmara Municipal de Évora não resisti à tentação de aplicar ao território local, a teoria da espiral de territórios que são criados pela intermediação tecnológica e pela desinformação. Todos os dias convivo com esse caleidoscópio.

Cidadãos que olham para o Município na perspetiva do seu património e cultura vêm um território extraordinário de tradição, identidade e beleza. Os que o olham pela localização geográfica, pelas acessibilidades e pela qualidade das ofertas de ensino, encontram uma centralidade multimodal única e fortemente capaz de atrair investimento e criar um presente e um futuro promissor. Os que tomam o ponto de vista do acesso à habitação e a alguns serviços essenciais percecionam um território com fragilidades e em recuperação com sentido de urgência.

Enumerei apenas alguns exemplos de como um território real é cada vez mais feito de vários territórios virtuais construídos pelas perceções dos que o habitam aditivadas pela informação e pela desinformação que brota em catadupas. Quem tem o mandato de fazer gestão real é também um construtor de mundos. Uma construção baseada no compromisso democrático com que foi eleito, nos valores e na ambição permanente de tornar mais sustentável e mais feliz o território que administra.

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