Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

E se falássemos mais?

Um académico, mesmo aposentado como é o meu caso desde há uns meses a esta parte, nunca deixa de ser um académico e de olhar a realidade com espírito permanente de interrogação e procura de explicações e soluções para os seus temas de pesquisa e de ensino.

Não obstante o espetacular desenvolvimento tecnológico a que estamos a assistir e que gera todos os dias ferramentas mais potentes para a gestão das organizações, a minha perceção, condicionada pela amostra daquelas com que contatei mais de perto nos últimos anos, é que as tecnologias podem tornar as organizações potencialmente mais produtivas e fluidas, mas não as tornam mais felizes e isso limita os ganhos que poderiam ser obtidos com a modernização e a satisfação intrínseca dos que nelas trabalham.

Habituei-me de forma simplista a olhar para as organizações e a classificá-las como mudas ou faladoras. Nas organizações mudas tudo circula pelas aplicações de gestão da informação, entremeadas com a profusa troca de mails, entremeadas por algumas conversas de circunstância. Nas organizações faladoras, não dispensando os mails e as aplicações e processamento e circulação da informação, as pessoas enquadram essas trocas com muitas conversas diretas, reuniões de grupo, telefonemas, ou conversas nas plataformas online.

Dar voz e vida à comunicação é um dos segredos de boa gestão mais mal guardados de sempre, ao mesmo tempo que parece ser cada vez menos praticado. Comunicar é um processo complexo. As palavras são temperadas de olhar, voz, expressão facial e corporal entre outros ingredientes do ser. Ao telefone prevalece o timbre da voz e tudo o que nele se expressa. No online surge um esboço de outras dimensões que se revelam na totalidade, mais ou menos empaticamente na comunicação presencial.

Eu gosto de pessoas e de estar com pessoas. Gosto de debater, conversar e desconversar, brincar com as palavras, ouvir e escutar para decidir ou contribuir para a decisão. Uso as ferramentas mudas por necessidade e dever, mas não fico confortável com o seu excesso.

Acredito que muita gente com outro tipo de personalidade prefira o refúgio do impessoal e sei que também pode haver comunicação muda com muita empatia. A perceção que aqui partilho é uma reflexão geral para despoletar o debate e as conversas. Uns a favor e outros contra, mas todos falando de sua justiça da sua experiência e sensibilidade. Eu penso que se falássemos mais eramos mais felizes e as organizações funcionavam melhor. E o leitor?

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