Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

Epifania

A intervenção no Fórum de Davos de Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá foi considerada por muitos uma epifania e um marco capaz de reavivar a esperança para os Países e os povos que não sendo hegemónicos, ambicionam continuar a ter uma palavra a dizer no futuro da humanidade.
Ao ouvir as palavras inspiradas e corajosas de Carney, senti algo parecido ao tinha sentido em 13 de março de 2013, quando o colégio cardinalício escolheu Francisco para liderar a igreja católica e ouvi as suas primeiras palavras. Nos dois casos, dois oradores inspirados quebraram a ordem imposta, semearam outra forma de olhar e ousaram mostrar outros caminhos.

Alguns acharão que as epifanias, talvez mais a de Francisco do que a de Mark terão sido a canalização através deles de uma força que os transcende. No domínio do transcendental tenho intuições fortes, mas pouco relevantes para a economia deste texto. O que quero acreditar é eles souberam sintetizar e comunicar melhor do que ninguém forças de mudança que vão fervilhando na sociedade e que são o contraponto necessário às narrativas e às práticas egoístas, baseadas na lei do mais forte e da subjugação dos mais fracos.

Há décadas que defendo que o novo mundo com suporte em plataformas tecnológicas não faz da contiguidade geográfica uma condição absolutamente necessária de afirmação de uma potência global. O movimento dos BRICS (Brasil, Rússia, India, China, Africa do Sul) entretanto alargado, tem constituído um exemplo de uma tentativa de formar um Arquipélago geoeconómico capaz de contrariar a “dolarização” da economia e reequilibrar as relações económicas. O seu sucesso, no entanto, tem sido mitigado pelas brutais fraturas de valores entre os seus membros e por irem a jogo no mesmo terreno da potência dominante, ou seja, do poder projetado e da vantagem económica para as suas elites.
A visão crua do Primeiro Ministro Canadiano abre portas para uma outra perspetiva, que há muito defendo, baseada na criação de um arquipélago de Povos unidos pelos valores contidos na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Sempre defendi que a União Europeia (UE) devia desenvolver a sua política externa conjunta com base neste paradigma. A contaminação dos valores europeus por perspetivas autocráticas e nacionalistas radicais retirou-lhe centralidade neste combate. Resta esperar que a epifania de Carney contamine as suas lideranças. Para a democracia e para o humanismo, enquanto houver vida tem que haver esperança.

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