Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

Esperança por Omissão

Quem me lê regularmente neste espaço sabe que sou um defensor convicto das vantagens do multilateralismo, do diálogo civilizacional, da cocriação e da cooperação entre os povos, como pilares da paz, do humanismo e de uma visão progressista e sustentável da nossa vida em sociedade.

É nesta perspetiva que sou também profundamente europeísta, porque acredito que os valores e os princípios fundacionais do projeto europeu são os que mais se aproximam de um modelo digno de convivência pacífica, livre e digna entre nações soberanas.

Os últimos tempos da União Europeia (UE) têm sido desafiantes e em muitas circunstâncias dececionantes. A erosão da visão comum, fomentada pelas potências que a querem fazer implodir, não nos podem fazer esquecer sucessos recentes como a resposta à COVID19, o apoio à defesa da soberania da Ucrânia ou a liderança persistente da transição energética sustentável e da transição digital com rosto humano. No entanto, a fragilidade na afirmação geopolítica e na condenação inequívoca das violações do direito internacional por parte dos Estados Unidos da América (EUA) e dos seus novos aliados, têm contribuído para uma perceção de irrelevância crescente e até de humilhação da União Europeia, não obstante a resistência corajosa de alguns dos seus membros, que não Portugal.

Neste contexto, a recusa coordenada dos 26 (a Hungria de Orban, com um processo eleitoral em curso, está desde há muito do outro lado da barricada) em acolitar Trump e Netanyahu nas suas derivas belicistas pelo Irão, Líbano e outros alvos no Médio Oriente, ressuscitou por omissão, a esperança de que a UE consiga ser o adulto na sala e a potência multilateral capaz de promover parcerias para a paz no meio do caos generalizado nas relações internacionais.

A UE é por inerência o ator global que mais deve defender a paz e que mais interesse tem em que ela aconteça, tendo em conta que é uma grande potência económica, mas com fraca capacidade de projeção de força, continua a depender muito dos EUA para a sua defesa e mesmo com a significativa redução da dependência dos combustíveis fosseis importados, o impacto na sua economia da subida dos preços nos mercados internacionais é brutal.

Cada impulso do volátil Presidente dos EUA, reflete-se com estrondo na segurança e na economia global e como sempre são os mais frágeis que pagam a maior parte da fatura. Desta vez a UE não tirou bilhete para ir à Guerra. Saúdo a omissão. É um fator de esperança.

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