Esperança por Omissão
Quem me lê regularmente neste espaço sabe que sou um defensor convicto das vantagens do multilateralismo, do diálogo civilizacional, da cocriação e da cooperação entre os povos, como pilares da paz, do humanismo e de uma visão progressista e sustentável da nossa vida em sociedade.
É nesta perspetiva que sou também profundamente europeísta, porque acredito que os valores e os princípios fundacionais do projeto europeu são os que mais se aproximam de um modelo digno de convivência pacífica, livre e digna entre nações soberanas.
Os últimos tempos da União Europeia (UE) têm sido desafiantes e em muitas circunstâncias dececionantes. A erosão da visão comum, fomentada pelas potências que a querem fazer implodir, não nos podem fazer esquecer sucessos recentes como a resposta à COVID19, o apoio à defesa da soberania da Ucrânia ou a liderança persistente da transição energética sustentável e da transição digital com rosto humano. No entanto, a fragilidade na afirmação geopolítica e na condenação inequívoca das violações do direito internacional por parte dos Estados Unidos da América (EUA) e dos seus novos aliados, têm contribuído para uma perceção de irrelevância crescente e até de humilhação da União Europeia, não obstante a resistência corajosa de alguns dos seus membros, que não Portugal.
Neste contexto, a recusa coordenada dos 26 (a Hungria de Orban, com um processo eleitoral em curso, está desde há muito do outro lado da barricada) em acolitar Trump e Netanyahu nas suas derivas belicistas pelo Irão, Líbano e outros alvos no Médio Oriente, ressuscitou por omissão, a esperança de que a UE consiga ser o adulto na sala e a potência multilateral capaz de promover parcerias para a paz no meio do caos generalizado nas relações internacionais.
A UE é por inerência o ator global que mais deve defender a paz e que mais interesse tem em que ela aconteça, tendo em conta que é uma grande potência económica, mas com fraca capacidade de projeção de força, continua a depender muito dos EUA para a sua defesa e mesmo com a significativa redução da dependência dos combustíveis fosseis importados, o impacto na sua economia da subida dos preços nos mercados internacionais é brutal.
Cada impulso do volátil Presidente dos EUA, reflete-se com estrondo na segurança e na economia global e como sempre são os mais frágeis que pagam a maior parte da fatura. Desta vez a UE não tirou bilhete para ir à Guerra. Saúdo a omissão. É um fator de esperança.