Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

O Alentejo é Grande

Henrique Raposo, cronista do Expresso que leio com regularidade pela sua capacidade de nos confrontar de forma provocatória sobre temas de atualidade, conseguiu mais uma vez o seu objetivo de dar nas vistas e ter impacto, ao colocar muita gente na nossa terra e para além dela, a reagir à sua “fatwa” política e sociológica sobre o Alentejo, a propósito do refrão de uma faixa de grande sucesso da banda eborense “Vizinhos”, intitulada “Pôr do Sol”.

O refrão de um singelo, mas cativante poema de amor, glossa o óbvio, seja qual for o ponto de vista objetivo de análise (porque subjetivamente até a Betesga pode ser maior que o Rossio). A fala que tanto chocou o lisboeta de adoção reza que “Se Lisboa é grande, o Alentejo ainda é maior”. Pois é.

Diz o escriba que esta narrativa esconde a pobreza, o discurso de ódio e o radicalismo que vai grassando pela região! Poderia ser lido de outra forma, porque pobreza, discurso de ódio e radicalismo não faltam em nenhuma das nossas regiões nem na nossa cidade Capital. Mas não quero ir por aí. Vou-me centrar na música.

Os novos cantores e as novas bandas que reinterpretam o sentimento e identidade alentejana à luz dos novos tempos e conseguem projetar a nossa forma de ser muito para além do nosso território, são uma prova inequívoca de que o Alentejo é grande. Obrigado!

Isso só é possível porque em paralelo um número cada vez maior e mais diversificado de grupos de cante alentejano tradicional, enraízam essa riqueza enorme que é nosso património e património imaterial da humanidade. Obrigado!

E também só é possível porque uma geração de autores e bandas, muitas ainda ativas, consolidaram com a sua música a liberdade de abril, que tem que continuar a ser defendida, mas que por agora pode ser usada por quem quer sonhar, criar e imaginar o mundo à sua maneira. Obrigado!

Não tenho procuração dos autores da canção e de quem tão bem a interpreta, nem de tantos outros autores e bandas emergentes na música nacional e internacional a partir do Alentejo, mas sinto que a sua afirmação é a afirmação de uma nova geração e uma nova leitura do território, que não é contra Lisboa, nem contra as tradições ou as gerações já consagradas. É pela positiva e é pela positiva que temos que ganhar o Futuro. O Alentejo é grande pela geografia, mas também pelo trabalho e pelo compromisso das suas gentes, lutando desde tempos imemoriais contra o centralismo piedoso. O Alentejo é grande. Lisboa não tem que ser menor por isso.

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