Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

Estreito

O estreito de Ormuz e as pelejas que por lá travaram D. Afonso de Albuquerque e outros Almirantes do Reino, fazem parte do meu imaginário desde os tempos em que o orgulho de ser Português nos era inculcado na escola, com as narrativas das aventuras de além-mar dos nossos navegadores, em busca da prata, espalhando a palavra e dando novos mundos ao mundo, num caminho de descoberta e de achamento.

O inopinado devaneio do líder dos Estados Unidos da América, grande nação livre e democrática, por estes dias corporação de negócios e de guerra, numa operação aditivada pelo instinto de sobrevivência pessoal do líder extremista no poder em Israel, trouxe para o espaço público, o conhecimento e o debate sobre a importância estratégica do estreito e a consciência plena, para quem ainda não a tivesse, de que a força pode destruir tudo, mas não pode tomar o direito à soberania ou apagar a individualidade e a diversidade dos povos, enquanto do extermínio restar uma semente.

De acordo com os princípios exarados na Carta das Nações Unidas e no Direito Internacional, o direito à diferença, para ser sustentável e benéfico para a humanidade, deveria ter sido complementado pela cooperação na defesa dos bens comuns, essenciais à paz, à sustentabilidade do planeta e à dignidade da vida humana.

Nunca soubemos tanto e estivemos tecnologicamente tão evoluídos e ao mesmo tempo nunca estivemos tão longe de partilhar o conhecimento e a sabedoria para criar comunidades mais livres, mais pacíficas e mais felizes.

O estreito de Ormuz é uma representação geográfica perfeita do estreito civilizacional em que estamos encapsulados. Um estreito bombardeado pelas maiores alarvidades, pejado de mísseis carregados de ódio, desinformação e ambições supremacistas, com barcos fundeados, corvetas ao largo, porta-aviões e submarinos, aviões e drones, e ainda assim, aqui e ali, crianças brincando, gentes amando, criando, sonhando e dando sentido ao dom supremo que é a vida consciente.

Retomo a memória. Contam as narrativas históricas, que chegados ao estreito e arredores os portugueses usaram desmesuradamente a força, mas também promoveram a mestiçagem e multiplicaram feitorias e redes de comércio que transformaram o mundo, tornando-o mais global, diverso e multilateral. Em viagens recentes por algumas dessas terras não encontrei ódio, mas antes perseverança em manter os laços que restam dum encontro de antanho. Que o estreito se alargue e que o bom senso e a empatia naveguem por ele em profusão.

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