Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

Jesus (A Remodelação do Mês)

Com a “pluma caprichosa” com que vai polemizando semanalmente na Revista do Semanário Expresso, e face à prestação medíocre, desconjuntada e sem compromisso da seleção portuguesa de Futebol no Mundial, onde caiu sem glória, Clara Ferreira Alves (CFA) fez uma analogia potente entre o Estado da Nação e o Estado do seu futebol de mais alto nível.

Escreveu a autora que “a equipa (Leia-se seleção Nacional de Futebol) é um espelho do que somos. A culpa é coletiva. Os portugueses perderam a garra, a ambição, o instinto assassino, não sabem jogar em conjunto”. Não sou tão pessimista como CFA, mas reconheço que ela identifica bem alguns sintomas ou tendências de esmorecimento que vão corroendo a nossa sociedade.

No curto prazo preocupa-me mais o outro lado da moeda. Havendo uma necessária correlação entre a expressão desportiva e a “saúde” de um povo, ela é biunívoca. Todos nos recordamos como um pontapé de Eder em 2016 nos catapultou para um ciclo de grande crença e autoestima nacional que impulsionou indubitáveis progressos económicos e sociais. De repente Portugal ficou na moda para os portugueses, mas também para muitos dos que olhavam de fora para o nosso País. Testemunhei-o pessoalmente em Bruxelas, em Estrasburgo e nos muitos lugares a que o mandato de Eurodeputado que exercia por essa altura, me levou.

Em contraponto, penso que todos os que gostam de futebol e de sentir o pulso sociológico ao País constataram como as sucessivas más exibições da “equipa de todos nós”, a ausência de capacidade e de mandato de liderança do seu selecionador, os equívocos, as teimosias, os erros clamorosos, a banalização de jogadores que ao longo do ano foram considerados dos melhores do mundo ao serviço dos clubes que representam, foram criando um desânimo que perpassou por toda a comunidade.

Com o impacto que o Futebol tem no estado de ânimo dos povos, remodelar o selecionador tem um impacto quase tão importante como a chicotada psicológica da remodelação de um primeiro-ministro, numa perspetiva óbvia de caricatura. É nesta perspetiva que espero que Jesus (Jorge) seja o líder que Portugal precisa. O seu percurso de treinador mostra que tem ideias claras e personalidade forte. Pareceu mais preocupado em negociar autonomia do que salário. Não será incólume às pressões, mas tem muito mais arcaboiço do que o incumbente cessante. Se tiver sucesso, conseguiremos inverter a ampulheta e em vez do Futebol deprimir o País, pode puxar por ele de novo, que bem precisa!

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