Territórios Vivos
Entre a musealização, a gentrificação e a descaracterização de um espaço histórico existe um caleidoscópio de percursos intermédios, cuja definição deve resultar de um debate aberto e participado envolvendo os protagonistas do processo, seja os mandatados para assegurarem a governação dos territórios, seja quem neles habita, opera ou visita.
Tendo nascido em Óbidos e vivido a maior parte da minha vida em Évora, tenho especial sensibilidade pela procura do bom senso necessário para se evitar a musealização dos espaços históricos habitados e também a sua gentrificação, enquanto fenómenos que envenenam o futuro daqueles que neles se querem fixar e desenvolver a sua vida com liberdade e criatividade, sem pôr em causa a identidade e a conservação. Fazer isso sem descaraterizar os espaços e valorizando o seu potencial é um dos grandes desafios que todos somos chamados a enfrentar e vencer.
Existem múltiplos casos em todo o mundo que demonstram que quando um centro histórico ou um bairro é excessivamente preservado de tudo o que é inovador e amigo do bem-estar, do lazer ou da dinâmica e do diálogo entre gerações, tende a tornar-se um “museu a céu aberto”, perde a autenticidade e a diversidade de ofertas e serviços e fica demasiado amarrado ao património e à memória. A excessiva especialização torna os espaços apetecíveis para algumas “tribos” que quando detêm maior poder económico expulsam uma parte da população residente e destroem a diversidade e a inclusividade críticas para a qualidade e a robustez das comunidades.
Por outro lado, também não faltam exemplos de espaços que foram descaracterizados pela voragem da massificação, da modernização descuidada e da exploração exaustiva, que em cúmulo acabaram por matar a especificidade do território e secar as suas fontes de vida. A vida saudável é mesmo o segredo dos territórios que cumprem a função de honrar o passado, dar chão ao presente e impulsionar os projetos de futuro. É fundamental evitar que a radicalização e a polarização contaminem a definição das soluções. Que os que só se preocupam com o seu quintal e os que não se interessam por quintal nenhum tomem conta do espaço público e asfixiem o bom senso.
O futuro dos territórios não pode ficar preso nas grilhetas dos que se se acorrentam aos paradigmas de antanho. Tem que ser construído numa comunidade aberta, inovadora, confiante e com a coragem de experimentar, transformar e vencer.