Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

Multilateralismo – A arma para vencer os desafios globais

As alterações climáticas, a pandemia da Covid-19 e a invasão russa da Ucrânia. Existe um fio condutor que liga todas estas crises globais: a cadeia causa-efeito que correlaciona fortemente o local de origem das crises, principalmente as áreas mais desenvolvidas do mundo, com as regiões onde as consequências das crises são mais severas, como é o caso do Continente Africano e das ilhas das Caraíbas e do Pacífico.

Com as alterações climáticas, alimentadas por décadas de emissões de CO2 produzidas pelos países mais avançados e, mais recentemente, pelos novos atores globais emergentes, assistimos a um aumento muito significativo de fenómenos meteorológicos extremos, tais como a desertificação, os furacões ou a subida do nível do mar.

Com a pandemia, a Covid-19 disseminou-se de forma semelhante por todo o mundo, mas apenas os países africanos acabaram por ficar fortemente dependentes da boa vontade dos países mais industrializados em fornecer-lhes vacinas ou capacidades para as produzir.

Finalmente, a invasão russa da Ucrânia provocou um efeito de causa indireta – uma grave perturbação nas importações de trigo, fertilizantes e aço, causando uma dramática crise de fome no Continente Africano e em muitas outras áreas remotas.

Neste contexto, que lição deve a comunidade internacional tirar deste fio condutor?

As crises globais exigem uma cooperação global. O multilateralismo é a resposta. O multilateralismo é o único caminho concreto para enfrentar crises globais como as alterações climáticas, pandemias, terrorismo, pobreza, direitos humanos, ou o impacto dos efeitos de um conflito.

Um mundo globalizado abre o caminho para o desenvolvimento de um novo multilateralismo reforçado e baseado numa parceria entre iguais. Sem ele, o risco não é apenas uma nova Guerra Fria, mas também um mundo cada vez mais dividido em blocos entre aqueles que têm os meios para lidar com as crises globais e aqueles que terão de sofrer as consequências das crises globais.

O multilateralismo não se destina a ser um processo com discussões intermináveis e inconclusivas. Pelo contrário, deverá pressupor uma ação coordenada e partilhada para assegurar investimentos e meios adequados que permitam finalmente cortar este fio condutor e transformar a dependência em interdependência.

Os Parlamentos, enquanto instituições mais próximas dos cidadãos e representantes diretos das sociedades civis, são por definição a casa da diversidade e do diálogo. A casa a partir da qual o multilateralismo pode e deve ser relançado.

A Assembleia Parlamentar Paritária entre os países de África, Caraíbas e Pacífico e a União Europeia (APP ACP-UE) é um caso único neste contexto. É a única instituição multilateral que reúne legisladores de diferentes continentes, cada um deles trazendo experiências e mandatos diferentes, mas todos ligados pelo sentimento de que só juntos podemos enfrentar desafios comuns e globais.

Esta é a razão pela qual todos esperamos que a próxima Assembleia Parlamentar Paritária ACP-UE, entre 29 de outubro e 2 de novembro de 2022, em Maputo, Moçambique, represente um ponto de viragem.

O governo húngaro de Orban tem como refém o Acordo Pós-Cotonu, instrumento concreto que temos para nos livrar da dependência e munir-nos da única arma que queremos disparar para enfrentar os desafios globais: o multilateralismo.

Nós, europeus, devemos intensificar os nossos compromissos, reforçando a dimensão parlamentar através da aprovação do Acordo Pós-Cotonu. Mais atrasos já não são aceitáveis.

Últimos Artigos

O Perigo dos Pacotes

Diário do Sul

Não é a primeira vez que escrevo neste espaço sobre o risco para a saúde democrática das estratégias de comunicação baseadas em pacotes de medidas e milhões, servidas em embrulho…

Ler o artigo completo

Resistir

Diário do Sul

Político, historiador e comentador, Pacheco Pereira é uma figura maior do nosso espaço público e uma das vozes mais lúcidas da nossa democracia. Évora teve o privilégio de poder contar…

Ler o artigo completo

Sinais de Abril

Diário do Sul

Mais uma volta na roda do tempo e mais um momento para celebrar a liberdade e a democracia que renasceu há 52 anos pela vontade de uma revolução liderada pelas…

Ler o artigo completo