Resistir
Político, historiador e comentador, Pacheco Pereira é uma figura maior do nosso espaço público e uma das vozes mais lúcidas da nossa democracia. Évora teve o privilégio de poder contar com ele como orador convidado na Sessão Solene Comemorativa dos 50 anos do Poder Local Democrático que se realizou na Praça do Sertório na manhã de 25 de abril.
Uma sessão em que tive a honra de intervir como Presidente da Autarquia e que contou, além do testemunho do convidado, com a intervenção de todas as forças políticas representadas nos órgãos municipais, do Presidente da Assembleia Municipal e do Presidente da União de Freguesias de S. Manços e S. Vicente do Pigeiro em representação dos Presidentes de Juntas e Uniões de Freguesias do Concelho.
Foi um ato solene muito participado, sereno, com intervenções políticas sólidas e que evidenciaram a pluralidade de perspetivas e o profundo respeito de todos os participantes pelos princípios da democracia representativa. Como eborense senti orgulho pela qualidade da sessão e pela elevação com que decorreram por todo o Concelho as celebrações do abril e da liberdade.
Numa intervenção profunda, baseada na vivência dos factos, com uma sublime capacidade interpretativa e suporte na aprendizagem resultante do seu trabalho de recolha e constituição do maior acervo documental privado sobre o processo político democrático em Portugal, Pacheco Pereira evidenciou como os riscos que a sociedade aberta hoje enfrenta são em larga medida riscos de insuficiência cultural e de literacia adequada para separar o trigo do joio, compreender o mundo, despistar a desinformação, sobreviver às perceções manipuladas e centrar a política nos factos e na resposta concreta aos desafios da comunidade.
Alguns dias antes, no dia 13 de abril, Pacheco Pereira tinha tido uma prova concreta da dificuldade que é fazer política como ele propõe, num contexto em que a predisposição do auditório, por razões de formação ou de perceção está mais recetiva às insinuações, às frases dúbias, aos ataques pessoais, do que à análise dos factos e ao debate construtivo sobre a sua interpretação. O frente a frente que travou na TV com André Ventura refletiu uma realidade em que o jogo já estava marcado e o resultado culturalmente viciado, antes mesmo do debate se ter iniciado.
Diz o povo que “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Mesmo em terreno difícil é preciso persistir, ou como disse Pacheco Pereira a concluir a sua intervenção, é preciso resistir. Resistiremos.