Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

O Preço da Não Escolha

Participei recentemente, no 24º Congresso da Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM), que decorreu no âmbito do 50º aniversário da Associação. No painel em que fui convidado a intervir enquanto ex-responsável político na área da energia, ex-Eurodeputado e atual autarca, a questão chave em debate era se “Estaremos nós a caminhar para o fim dos combustíveis fósseis?”.

A longo prazo estamos. A curto prazo nada indica que assim seja. Os combustíveis fósseis, em particular o gás, são pilares essenciais para a transição energética enquanto estabilizadores da potência disponível, até que as maturidades tecnológicas dos sistemas baseados em energias renováveis respondam competitivamente em termos de armazenamento, distribuição e preço.

Num congresso de transportadores, a questão subjacente à pergunta colocada tinha obviamente a ver com o futuro dos veículos de transporte e com a inevitabilidade ou não da eletrificação.

Na minha opinião, tendo em conta a fusão cada vez mais evidente entre a informação que atua sobre a energia e a energia que atua sobre a informação, a eletrificação do mundo em que vivemos é inexorável, o que não significa que não continuem a ser utilizados combustíveis fósseis para produzir eletricidade.

Sistemas de dados, redes de produção e de carregamento e veículos farão cada vez mais parte do mesmo ecossistema e serão geridos de forma integrada. Antevejo rápida progressão dos veículos elétricos nas cidades, sobretudo nos transportes públicos e na designada mobilidade suave, uma maturidade rápida do hidrogénio nos transportes pesados e uma transição mais lenta em todos os outros domínios.

Refletir sobre a questão “Estaremos nós a caminhar para o fim dos combustíveis fósseis?” tem também um enorme impacto no planeamento do futuro das cidades e dos territórios.

Quando entre 2009 e 2011 fui Secretário de Estado da Energia, a indústria europeia tinha todas as condições para liderar a transição dos veículos convencionais para os veículos elétricos, e detinha a primazia nas tecnologias de armazenamento e carregamento.

As pressões da indústria tradicional para desacelerar a transformação teve um resultado nefasto. Hoje a indústria automóvel europeia não lidera nem nos veículos com motores de combustão nem nos veículos elétricos. O preço da não escolha foi uma fatura a dobrar. Que nos sirva de lição para outros domínios. Para o planeamento da mobilidade urbana e interurbana por exemplo.

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