O Sol Brilha em Évora
Escrevo esta crónica alguns dias depois de todo o País e em particular a sua Região Centro terem sido assolados por uma sequência de tempestades, sinal do impacto cada vez mais crispado do aquecimento global, com grave prejuízo para as pessoas e para os territórios.
Por coincidência, terminada a intempérie que também marcou o Alentejo e pôs em evidência algumas debilidades estruturais da minha cidade, em particular nas acessibilidades e controlo de leitos de cheia, na Gala Sóis da Repsol realizada dia 16 de fevereiro em Tarragona, a organização de um dos mais prestigiados festivais gastronómicos da Península Ibérica, anunciou a escolha de Évora para ser a cidade sede da Gala portuguesa de 2026, a realizar dia 13 de abril no Teatro Garcia de Resende, sob o signo que titula esta crónica – “o Sol Brilha em Évora”.
Para Évora e para o Alentejo, o reconhecimento da excelência e da identidade da sua gastronomia, dos seus restaurantes e dos extraordinários profissionais do sector, desde os que produzem, aos que selecionam os ingredientes, transformam numa alquimia mágica de sabores únicos e que criam ambientes e condições diferenciadas para eles serem apreciados, é uma grande notícia, no plano dos factos e no plano simbólico.
Insere-se num contexto mais vasto de reafirmação da cidade como a Capital Europeia ao Sul que nunca deixou de ser e que lhe permitiu ser selecionada como Capital Europeia da Cultura 2027.
Contribui para marcamos o início de um tempo em que a forma alentejana de ser, de estar, de fazer e de ler o mundo é reconhecida pela história e pela identidade, unidos por um olhar diferenciado sobre a cultura como instrumento de libertação e de desenvolvimento.
Évora conquistou o direito de tornar mais europeia e mais global uma identidade que foi construindo ao longo dos séculos. Évora Capital Europeia da Cultura será uma enorme celebração criativa de um ciclo material e imaterial que se vai construindo e embrenhando na Cidade, no Concelho, na Região, no País, na Europa e no Mundo.
Como Capital Europeia da Cultura, ou agora como Capital Ibérica da Gastronomia, Évora foi escolhida porque se soube como uma capital europeia ao sul, fortemente marcada pelo encontro entre o atlântico e o mediterrâneo.
É desse encontro feliz que brota a nossa literatura, a nossa pintura, a nossa escultura, a nossa música, a gastronomia e a nossa forma de ser. E é dele também que tem que crescer a onda imaterial e material de transformação, que inspirou, inspira e inspirará os agentes culturais, os agentes do território, entre eles os Chefs que se afirmam na gastronomia, irmanados num mesmo fluxo de leitura do tempo e do espaço a que chamámos vagar.
Vagar, capacidade de parar antes de avançar ou de recuar, capacidade respirar para relaxar, para nos inserirmos na natureza de que somos parte, para cumprir os ciclos das estações ou para surfar a vaga das novas oportunidades. Que o Sol brilhe por Évora e por todo o País, no céu e no coração.