Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

Repovoar o Espaço Público

A democracia está cada vez mais encapsulada pelos ecrãs, pela comunicação rápida e efémera, pela predominância das perceções, pelo reacender dos medos que conduzem a vitórias arrasadoras de quem os cavalga, como aconteceu recentemente no Estado de Saxónia-Anhalt, no centro leste da Alemanha.

O diagnóstico está exaustivamente feito. Os partidos democráticos tradicionais perderam a ligação à realidade, focaram-se em causas minoritárias que não correspondem às grandes prioridades das pessoas e permitiram o estilhaçar da classe média, que sempre foi a base sociológica das democracias representativas. É preciso ouvir com atenção os sinais dos povos e ir muito para além do diagnóstico, repovoando o espaço público, com massa critica para que nele se possam germinar soluções que sejam alternativas e não meros travões conceptuais àquilo que na dinâmica social parece imparável, de que são exemplos marcantes as dinâmicas migratórias, a transição energética e a revolução digital, em particular a disrupção em espiral gerada pela Inteligência Artificial.

Saúdo os sinais de resposta que se vão sentindo no nosso País como anúncio de novos ou ressuscitados espaços de debate complementares dos Partidos e movimentos políticos tradicionais. Espaços que na linguagem da ciência política se designam por “Think Tanks” e em português podem ser e são Institutos Políticos, Centros de Estudos Políticos, Centros de Reflexão ou Laboratórios de Ideias, entre outras designações.

Num ecossistema democrático saudável, a participação cívica e a reflexão e ação política têm que interagir de forma dinâmica e interativa. Nos domínios da energia e da informação essa interação é absolutamente decisiva para a Democracia. Será no acesso à energia e no acesso aos dados que se vai decidir a geopolítica da próxima década. Para isso é fundamental investir fortemente nas energias renováveis e nos centros de dados. Nos sistemas autoritários essa decisão de investimento pertence à oligarquia no poder. Nos sistemas democráticos pertence à cidadania que define e escrutina o poder.

As plataformas cívicas que se mobilizam contra as energias renováveis e os centros de dados nos seus territórios são legítimas e bem-intencionadas, mas a sua ação tem que interagir com a avaliação pelas plataformas políticas das consequências que isso pode ter para a sobrevivência geopolítica dos sistemas democráticos. É por isto e muito mais, que repovoar o espaço público é uma sementeira fundamental para o futuro.

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