Sete Vidas
Já tenho vida para ter vivido muitas vidas, muitos ciclos e muitas experiências. A grande maioria dos desafios profissionais e cívicos com que fui sendo agraciado não seguiram qualquer lógica linear. Foram fruto de confluências inesperadas das circunstâncias que os permitiram, tendo por alicerce um percurso pessoal, político e académico em que fundeou o baloiçar das marés. O que aconteceu comigo, aconteceu certamente também com os leitores da minha geração. Todos vivemos sete vidas, mais ou menos fugazes.
A idade vai-nos dando mais consciência da precariedade da vida. A pandemia do COVID19 foi um acelerador forte. Deu origem a um profundo abalo sísmico nas certezas e nos planos, e ao mesmo tempo foi uma demonstração cabal de que a capacidade de adaptação à mudança dos seres humanos e das comunidades em que vivem é muito maior do que normalmente imaginamos.
Com a pandemia, práticas que pareciam impossíveis tornaram-se rotinas algum tempo depois. Lamentavelmente, passada a onda, as boas aprendizagens colaborativas esmoreceram mais depressa do que os comportamentos egoístas de autossuficiência e isolamento que medraram à custa dos estados de exceção.
O descalabro das expetativas de que, vencida a maleita, o mundo ficaria melhor, fez acrescer o pessimismo global. Agora, quando enfrentamos a pandemia social e política provocada pela derrocada do direito internacional, damos por nós de mãos presas e destinos dependentes da volúpia de líderes que chegaram ao poder eleitos como caricaturas grotescas da sede de poder sem empatia que contaminou a humanidade.
Voltando a olhar para o meu caminho, sei que ele continuará a ser o fruto das circunstâncias, mas há uma circunstância geopolítica que era quase uma constante e agora se tornou uma variável. Nunca nas minhas sete vidas tinha adormecido sem saber se o céu não me iria cair em cima da cabeça durante a noite, a mando ou a desmando de um triturador de civilizações. Nada de excecional. É assim para muitos, o que ainda é pior sinal.
Existem “reality shows” para todos os gostos, mas faltam as narrativas, histórias e lideranças positivas. Francisco partiu e a sua memória vai esmorecendo. Aqui e ali surgem vozes de esperança que a volúpia da aceleração rapidamente trata de absorver.
Leão XIV saiu da sua zona de conforto e viajou até África. Em boa hora. Há quanto tempo está apagada a luz sobre África, os seus sonhos e as suas tragédias? Precisamos sarar a grande ferida que Trump e Netanyahu abriram e tratar das outras.