Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

Do Coliseu até Viseu

Participei recentemente no XXV Congresso Nacional do Partido Socialista realizado em Viseu. Foi o 15º Congresso Nacional consecutivo em que participei, com a estreia a ocorrer em Lisboa em 1983, no mítico Coliseu dos Recreios. Cada um desses conclaves teve uma história própria, com maior ou menor tensão e disputa, no quadro normal de debate de uma força política que se assumiu sempre como um pilar da democracia plural.

Nos mais de quarenta anos que mediaram entre o meu primeiro Congresso e o que ocorreu recentemente em Viseu muita coisa mudou e muitos rituais sobreviveram. O Congresso de um grande partido democrático é um extraordinário caleidoscópio e laboratório social, cruzando amizades e rivalidades, valores e interesses, palco e bastidores e cada vez mais nos últimos anos, realidade percecionada no local e realidade percecionada através das múltiplas construções mediáticas.
Em Viseu reencontrei muitos bons amigos, alguns deles companheiros de caminho desde o primeiro Congresso em que participei. Encontrei também muita gente vinda de todo o País, com quem conversei e dos quais ouvi excelentes intervenções no palco principal ou nas diversas oficinas e painéis de debate paralelos, e que eu não conhecia.

Novos rostos e novos protagonistas de todas as idades, muitos deles impulsionados pelas dinâmicas autárquicas, académicas, sindicais ou empresariais que vão resistindo à erosão da participação cívica no nosso País.

Saí da “bolha” do Congresso agradado com uma perceção de renovação que tinha sentido, mas fui rapidamente confrontado com um choque de realidade. Muitas pessoas com que falei a seguir disseram-me que o Congresso que viram, ouviram ou leram, fora interessante, modernaço, mas os protagonistas eram sempre os mesmos.

Os partidos democráticos têm que extrair lições desta perceção. Na comunicação mediática dos bastidores, os consagrados tendem a abafar os recém-chegados. O mesmo acontece na gestão dos palcos e tempos de intervenção. Para agravar a situação, os mais velhos nem sempre adequam a sua participação de modo a legar a experiência sem ofuscar quem chega.
Neste quadro, mesmo que haja renovação, a perceção é de continuidade e isso não serve a democracia nem mobiliza os cidadãos para a participação cívica. O exemplo que escolhi é apenas um exemplo. Ele repete-se no quotidiano da comunicação política. É preciso arrepiar caminho para devolver ao espaço cívico a força que nunca deveria ter perdido.

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