Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

O Descodificador Cultural

Talvez pela a imersão na cultura em sentido lato, que necessariamente resulta de ser Presidente de um Município com a história, o património e a identidade cultural de Évora, e que em reconhecimento e celebração, será Capital Europeia da Cultura em 2027, e também porque a aceleração tecnológica e o combate pela sobrevivência da centralidade humana face ao desenvolvimento dos modelos de linguagem a isso me obriga, a verdade é que sinto cada vez mais que o descodificador cultural associado à capacidade de imaginar, são as duas chaves que poderão abrir uma nova etapa de disrupção sustentável para a humanidade tal como a conhecemos.

A dimensão cultural, embora por vezes menorizada, sempre foi fundamental no desenho de políticas. Em parceria com a caracterização morfológica e geográfica, com a base sociológica, com o potencial económico, com o quadro ambiental, com o acervo de trabalhadores mais ou menos qualificados, com a rede de conhecimento e as ferramentas de incentivo ao investimento e à inovação, a base patrimonial e cultural sempre foram eixos considerados, quanto se desenharam e implantaram estratégicas de valorização do território.

O que mudou agora, com a incerteza e a aceleração global, é que a Cultura deixou de ser apenas um importante elemento para a gestão do Território, para passar a ser o seu principal alicerce, definindo se a semente do futuro cai no caminho, na berma inóspita ou no terreno fértil.

A cultura alentejana, lato senso, foi ao longo dos tempos interpretada como de extraordinária riqueza associada a uma perceção de lentidão, desigualdade social gritante, sofrimento e partida. Se formos capazes de usar a cultura do Vagar como descodificador, poderemos ambicionar mudar a perceção a narrativa e sarar progressivamente as feridas de iniquidade e carência que ainda pululam pela terra alentejana.

Se assim o fizermos, o território do Alentejo, como outros territórios que cruzam identidade com modernidade e interioridade com centralidade cultural e geográfica, tornar-se-ão duplamente atrativos, para os querem fruir de um padrão de vida com maior controlo sob o tempo e o seu espaço vital, e para os que querem habitar num contexto ideal para se focarem na fronteira do conhecimento, da inovação e do investimento e gerar redes de transformação unidas por uma cultura que repele o efémero e puxa pelo sentido das coisas.

Évora, Capital Europeia ao Sul pela sua história, pelo seu património e pela sua ambição, e Capital Europeia da Cultura 2027 pelo reconhecimento da sua matriz diferenciadora, vive um tempo único de oportunidade para se assumir como indutora de uma mudança de perceção, com consequências estruturais no desenvolvimento do território e no legado que vai ser gerado para o futuro da cidade, no concelho, na região e muito para além dela, promovendo com isso uma cultura de liberdade, diversidade, inclusão e paz, mas também de desenvolvimento sustentável, dignidade e propósito.

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