Elevador Avariado
A avaria do elevador social em Portugal, há muito diagnosticada, constitui um dos mais potentes fatores de corrosão da nossa sociedade, agravamento de fraturas na comunidade, criação de guetos físicos e comportamentais, promoção da anemia cívica e arroteamento de terrenos férteis para os extremismos e os radicalismos.
Os resultados da primeira fase de colocações no ensino superior público são um extraordinário manancial para compreender as dinâmicas na transição geracional no nosso País, como por exemplo a atratividade comparada entre escolas e territórios e a emergência de novas áreas de oferta e o ocaso de outras. Permitiram também expor em carne viva a falência do elevador social.
O jornal diário “Publico” fez manchete na sua edição de 23 de agosto daquilo a que chamou a morte do elevador social. O indicador que fez o Jornal passar a certidão de óbito é terrível – “os mais pobres são apenas 3% dos colocados”.
Independentemente da robustez do indicador que classifica como pobres os estudantes cujas famílias estão no escalão mais baixo de rendimento para efeitos do benefício da ação social escolar, um País que distorce de forma tão escandalosa o princípio da igualdade de oportunidades é um País estruturalmente doente e com riscos evidentes de agravamento da dimensão do fosso social.
Ao abordar este tema sob o ângulo das desigualdades, não pretendo desvalorizar indicadores que são positivos. Com novas regras o número de candidatos subiu quase 25% e o número de colocados na primeira fase quase 15%. No Alentejo em particular, num quadro demográfico difícil, a Universidade de Évora e as Universidades Politécnicas de Portalegre e Beja conseguiram resultados estimulantes de crescimento da procura. A Universidade de Évora ficou com apenas 10% de vagas por preencher na segunda fase e colocou-se na fronteira dos novos saberes, com ofertas de nova geração em áreas como a Engenharia Aeroespacial e a Inteligência Artificial, reforçando assim a consistência de todo o seu portefólio.
A boa tendência no plano quantitativo é mais uma razão para valorizarmos a correção qualitativa, adaptarmos cada vez melhor as ofertas às necessidades da sociedade e às preferências dos estudantes e aplicar políticas públicas robustas de inclusão e combate às desigualdades, desde a creche até à Universidade e incluindo a formação ao longo da vida. Reparar o elevador social é uma prioridade estratégica para Portugal e a educação é uma peça central desse processo. É tempo de agir.