Eclipse – 2144
O eclipse que ocorreu em 12 de agosto, total nalguns pontos do nosso território e quase total na sua generalidade, mobilizou muita gente, foi bonito de se ver, permitiu uma sensibilização generalizada para a ocorrência cíclica de fenómenos astronómicos e até nos deu umas lições de comportamento de massas, como bem ilustrou a corrida desesperada aos óculos certificados para olhar o “astro rei”.
Segundo as informações científicas divulgadas, embora ocorram com alguma regularidade eclipses parciais, um eclipse com a dimensão do que ocorreu agora, só tinha ocorrido em Portugal em 1912, quando nenhum de nós era nascido. A pessoa viva mais idosa em Portugal no dia do eclipse recente tinha nascido em 22 de dezembro de 1912 (e infelizmente morreu no passado dia 22 de agosto).
O próximo eclipse de dimensão e características similares ocorrerá em 2144, data em que muito provavelmente muito poucos de nós serão biologicamente vivos, não obstante a corrida científica pela longevidade que está a ocorrer nos mais avançados laboratórios científicos do globo. Só essa corrida justifica aliás esta minha previsão. Nos registos oficiais, o nosso recordista de longevidade foi uma mulher que viveu até aos 115 anos.
Biologicamente vivos ou não, com o desenvolvimento dos modelos de linguagem associados à inteligência artificial o nosso legado para a perceção consciente do mundo será em média muito mais potente em 2144 do que foi o legado médio dos que nos antecederam.
Ao longo de gerações fomos portadores do património genético e do património físico e cultural que fomos construindo e transformando, mas muito poucos foram aqueles que, usando a imagem do grande Luis de Camões “por obras valerosas se (foram) da lei da morte libertando”, embora muitos outros tenham passado à história por feitos que de “valerosos” tiveram muito pouco.
Fazer prospetiva no meio do turbilhão científico, tecnológico e político em que vivemos é um ato arriscado. Se não houver uma transformação quântica que mude o jogo, este meu texto será uma prova de vida em 2144, independentemente de eu já não estar vivo, porque estará incorporado nas raízes dos modelos de linguagem que serão ativados quando alguém quiser colocar o eclipse de 2026 em Portugal numa qualquer equação conceptual. Somos cada vez mais tecnologicamente imortais. Mais uma razão para não nos rendermos ao eclipse da vontade, do sonho, da imaginação, da utopia e da luta permanente por um mundo melhor.