Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

Na Própria Baliza

Confesso que tentei não desabar na enxurrada provocada pelo anunciado fim da carreira de Cristiano Ronaldo enquanto jogador da seleção portuguesa de Futebol. No meio da borrasca, como adepto da bola, não resisti a fazer um comentário nas minhas redes sociais e que aqui transcrevo “Ronaldo na Seleção Portuguesa exigia conciliar a questão desportiva e a questão económica. A forma como geriu ou foi gerida a sua saída não serviu nenhuma delas”. Um comentário simples, mas que teve mais impacto que a soma de todas as outras publicações que fiz nessa semana.

Retomo o comentário, agora mais a frio, para dele extrair algumas lições desportivas e económicas, fugindo a apreciações emocionais que também terão sido determinantes, mas que não tenho dados para avaliar.

No plano desportivo, tudo mudou com um fora de jogo milimétrico de Gonçalo Ramos naquele que seria no momento o terceiro golo de Portugal na Noruega e permitiria que Ronaldo tivesse passado do aquecimento para o relvado, fazendo o que Portugal precisava que ele fizesse agora. Ser um símbolo de prestígio e de união na vitória, na divulgação internacional do futebol português e na captação e motivação dos jovens de todo o mundo para a prática do futebol. Do ponto de vista desportivo o plano Ronaldo fazia sentido a médio prazo e a decisão de Jesus de garantir a vitória no jogo fez sentido no curto prazo. Faltou intermediação e gestão.

No plano económico uma coisa é clara. A marca Ronaldo tem um valor brutal. A marca Portugal ganhou muito em ter associada a marca Ronaldo. Com a má gestão da saída a marca Ronaldo desvalorizou-se e a marca Portugal também.

Por muita justiça que se faça ao melhor jogador de sempre do futebol português, a sua imagem ficou ferida por um comportamento impulsivo e egocêntrico que mancha uma imagem de quem podia e devia continuar a ser uma referência do futebol global muito para além do inevitável fim da carreira desportiva. Por muito rebuscada que seja a narrativa, Portugal não se livra de ser notícia global por uma zaragata e um choque de egos que devia ter sido antecipada e mitigada.

A nossa seleção iniciou um ciclo de elevada prestação na Taça das Nações. Marcou mais golos do que os que sofreu, mas a forma como Ronaldo saiu da seleção foi um frango coletivo e desnecessário na própria baliza, de que ele e nós todos vamos demorar muito tempo a recuperar.

Onde estava o VAR? A Federação Portuguesa de Futebol tem que fazer tudo para reverter e mitigar o impacto deste triste episódio.

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