Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

O Cavalo do Inglês

Prenhe de ferramentas metafóricas para adornar o seu discurso político, Marcelo Rebelo de Sousa comparou a atuação do BCE na gestão das taxas de juro de referência em contexto de pressão inflacionista e elevado risco de estagflação na Zona Euro, à célebre terapia que se conta numa história que tem passado de boca em boca ao longo das décadas. Segundo o que se conta, vários banqueiros sugeriram a um Inglês que tinha um cavalo, mas que tinha dificuldade em manter o seu orçamento pessoal equilibrado, que fizesse um corte progressivo de despesas. O inglês decidiu cortar progressivamente na ração animal e as contas foram melhorando, mas quando tudo parecia finalmente equilibrado financeiramente e o cavalo se tinha habituado a não comer, o equídeo morreu de fome.

A Sra. Christine Lagarde é francesa e empoderada pela independência institucional que os tratados atribuem ao Banco Central Europeu, e possuída por uma visão tecnocrática e não empática da sua missão de controlo da inflação decidiu aplicar uma redução de rendimentos forçado aos europeus mais vulneráveis, fazendo galgar até picos nunca antes atingidos as taxas de juro de referência e apelando aos Governos a prática da abstinência na disponibilização de apoios sociais mitigadores do estrangulamento em curso na dignidade de vida das famílias.

Reza a história do cavalo do inglês (que era escocês noutras versões) que antes de se finar, o Cavalo até arrebitou e pareceu viver bem com o corte. O mesmo não se pode dizer da receita de Lagarde e dos seus falcões, que não só têm destruído vidas e espalhado a desesperança, como têm falhado o controlo da inflação e provocado uma desaceleração das economias da Zona euro, algumas delas em risco de recessão estrutural.

Acresce que o Banco Central Europeu é uma Instituição que embora goze do estatuto de independência em relação ao poder político, não pode nem deve ser independente dos valores e dos princípios que estruturam e dão sentido à parceria.

A cegueira empática das suas políticas do BCE tem sido uma benesse para os populistas, demagogos e radicais antieuropeus. Na história o cavalo morre e reduz a zero os custos de alimentação que o dono tinha com ele. Se a União Europeia implodir, o BCE também não terá mais que se preocupar com a inflação e antes de se extinguir poderá ainda arrematar alguma verba extra com o leilão das mobílias. Quando os decisores não colocam as pessoas na equação, não estão a exercer a nobreza da política. Estão a usar a “polis” para exaltar o seu poder fátuo.  Não são dignos do mandato que lhe foi outorgado.

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