O Espelho do Mundo
Para quem, como eu, sempre adorou jogar futebol, ver futebol, vibrar com o futebol, um campeonato do mundo é um momento extraordinário. Olhando em retrospetiva para os campeonatos do mundo que pude acompanhar, e já foram muitos, não é difícil concluir que cada campeonato, com a localização, vicissitudes e polémicas próprias, foi o espelho do mundo, no tempo em que ocorreu.
O mesmo está a acontecer com o Campeonato do Mundo 2026 agora a decorrer em três Países tão próximos e tão afastados como são o México, o Canadá e os Estados Unidos da América.
Não tenho ilusões sobre a dimensão de negócio global que capturou o futebol profissional. No entanto, quando os jogos começam, esqueço-me dos milhões que fervilham por detrás da cena e vivo o jogo torcendo pela minha “tribo”, seja ela qual for em cada momento
Neste mundial puxo obviamente pela seleção das quinas e por afinidade por Cabo Verde, o Brasil e as seleções de países da União Europeia, somando o Canadá, que vejo cada vez mais como um de nós no combate pelo multilateralismo e pelos valores da liberdade, da democracia e do humanismo em que continuamos a ser campeões.
Este conúbio União Europeia/Canadá é uma das facetas do estado do mundo que este mundial amplia, mostrando como a contiguidade geográfica é cada vez mais difusa nas alianças estratégicas para o futuro. Podemos dizer que é no Canadá que a Europa se revela, no México que outra parte do mundo se reflete e nos Estados Unidos que se foca a bolha da elite financeira transversal.
Deste ponto de vista é curioso sublinhar a invenção lesa futebol dos intervalos para hidratação, que quebram o ritmo do jogo, mas aceleram a faturação da publicidade, que pela primeira vez se vai poder ensanduichar no meio das transmissões e vai tornar o jogo menos interessante e emotivo para sempre.
Outra faceta escandalosa do torneio, replicando com estrondo o que aconteceu no Europeu de 2024, é a transformação da bilhética numa plataforma de especulação financeira, retirando da bola a magia de ser o sítio onde gente de todas as proveniências e classes se une por um emblema e por uma paixão, tornando o estádio inacessível a quase todos e deixando lugares vazios em muitos jogos.
Canadá na “Europa”, intervalos para publicidade disfarçados de cuidados com o bem-estar dos jogadores e roleta especulativa no leilão dos acessos. Estranho? Não … são apenas sinais do mundo em que vivemos a ver-se ao espelho no mundial de futebol.