Artigos de Opinião

Neste espaço poderá encontrar os artigos que ao longo dos últimos anos foram sendo escritos por Carlos Zorrinho e publicados em diversos meios de comunicação social.

A Nuvem, a Onda e o Balão

O partido que representa a extrema direita radical xenófoba e populista em Portugal atingiu um resultado eleitoral acima dos 18%. Muitos analistas somaram o resultado deste partido ao resultado da Coligação PSD/CDS/PPM e da Iniciativa Liberal para proclamar que o País tinha virado à direita, dando-lhe uma ampla maioria.

A análise política das legislativas de 10 de março não pode ser feita apenas com contas de somar. A direção política e a filiação internacional do partido emergente são enraizadas na extrema direita radical, nacionalista, xenófoba e reacionária, mas uma elevada percentagem das portuguesas e dos portugueses que nele votaram não são nada disso. São cidadãos descontentes, frustrados com o que a vida lhe deu, desconfiados das elites e dos partidos tradicionais e que encontraram numa escolha antissistema a forma de exprimirem a sua amargura e o seu ressentimento.

Os sentimentos destes cidadãos como nós, em particular dos mais jovens, foram insuflados pela nuvem que tomou as redes sociais, plantadas de desinformação, falsos perfis e manipulação e pela histeria de alguma comunicação social, ávida de audiências fáceis. A nuvem da frustração aumentada gerou uma onda que atravessou todos os círculos eleitorais e criou um novo balão politico na democracia portuguesa.

Esta não foi a primeira vez que a democracia portuguesa assistiu a fenómenos de onda, o mais espetacular dos quais terá sido a emergência do PRD (Partido Renovador Democrático) que em 1985 atingiu também cerca de 18% dos votos e elegeu 45 deputados num universo de 250.

A onda do PRD foi também uma manifestação generalizada de descontentamento com os Partidos tradicionais, mas com a alternativa a posicionar-se claramente dentro do quadro constitucional vigente, sem o contexto de digitalização da sociedade em que hoje vivemos e sem patrocínios externos similares aos da onda que hoje nos assola. A sua duração foi curta e o balão esvaziou-se em pouco mais de um quinquénio.

Será a onda de 10 de março também um balão conjuntural mais ou menos resiliente ou terá vindo para ficar na paisagem política portuguesa como um bloco extremista e desafiador da liberdade, do diálogo, da tolerância e dos direitos conquistados na revolução de 25 de abril de 1974?

Tudo dependerá da resposta política e social que os Partidos tradicionais souberem dar, não apenas ao diretório, mas sobretudo às pessoas que votaram na nova força não por convicção ideológica, mas por desilusão e perceção de abandono. Que seja uma resposta à altura de um futuro democrático, livre e justo.

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