O Cluster do Vagar
À medida que se vão multiplicando as iniciativas de preparação da Capital Europeia da Cultura 2027 em Évora, cuja abertura está programada para dia 6 de fevereiro desse ano, também vai ganhando corpo o caleidoscópio de definições, aplicações e declinações do conceito de Vagar que lhe serve de referência.
Nestas e noutras páginas tenho multiplicado reflexões sobre o tema. Cada dia que tenho que falar da Capital Europeia da Cultura aos diversos agentes e públicos, vou desenvolvendo cada vez mais a minha perceção sobre a riqueza e enorme potencial do conceito, enquanto inspiração cultural, transformador de práticas e fator de atração.
Nas últimas semanas tenho podido participar em múltiplas sessões de abertura e encerramento de congressos e conferências que Évora atrai cada vez mais, nos domínios da inovação social e económica, da investigação científica, do desenvolvimento dos territórios e das fileiras e cadeias de valor que lhe dão sustentabilidade.
Introduzindo nas minhas intervenções o tema do Vagar vou tendo cada vez mais consciência que se está a abrir para o Alentejo em geral e para Évora em particular uma vereda de oportunidade que vai para além da dimensão cultural e do lazer.
Na fronteira da tecnologia e do conhecimento existe cada vez mais gente desejosa de saltar do comboio da aceleração para ganhar o controlo sobre a transformação. A associação ao tempo lento que foi durante muito tempo um “handicap” para a perceção dos setores económicos e científicos de última geração sobre a nossa terra, pode constituir agora um extraordinário fator de vantagem competitiva, se formos capazes de oferecer um contexto favorável à reflexão, ao trabalho colaborativo e à cocriação disruptiva. Em particular as novas gerações valorizam cada vez mais a qualidade de vida como alicerce da sua realização profissional.
Para que tudo isto seja possível temos que ir além do enriquecimento do conceito e da valorização da sua aplicação. Temos que em complemento oferecer aos nómadas do vagar melhores condições práticas de vida nos domínios da habitação, da saúde, da educação para os seus filhos, das ofertas desportivas, culturais e desportivas e da qualidade dos espaços públicos, numa relação que não pretendo que seja exaustiva.
O desafio que temos pela frente é enorme, mas a oportunidade merece uma enorme conjunção de esforços, para que o legado da Capital Europeia da Cultura 2027 vá para além das fronteiras do seu foco primordial e gere também um atrativo Cluster do Vagar no território que a acolhe.