Consenso em Movimento
Um dos conceitos mais traiçoeiros e abusados no desenvolvimento dos processos políticos é o designado consenso. Toda a gente apela ao consenso sobre as mais variadas coisas como se ele representasse o pináculo da verdade aspergida da confluência da diversidade dos pontos de vista. Na minha experiência de vida assisti múltiplas vezes à formação de consensos rápidos e aparentemente indolores sobre questões complexas, que se vieram a revelar uma máscara para o não compromisso e para o arquivamento da vontade de transformar.
Quando uma ideia ou um projeto inovador e transformador suscita uma aquiescência silenciosa, isso só se pode explicar porque o projeto é mesmo extraordinário e beneficia transversalmente e equitativamente toda a comunidade ou então é porque ninguém teve a capacidade, a coragem ou a vontade de o debater, muitos acreditando que o vazio de contraditório acabará por impor o seu desfalecimento. Os bons projetos transformadores suscitam bons debates na sociedade e os bons debates dão origem a consensos em movimento, a soluções que se vão adaptando e melhorando, a compromissos que se vão reforçando e a resultados que permitem avaliar e fazer melhor em cada ciclo de concretização.
Em várias tarefas profissionais liderei processos de transformação em domínios como a governação pública, o desenvolvimento regional, as estratégias de crescimento e emprego, a inovação tecnológica, a ajuda humanitária ou a cooperação para o desenvolvimento. Hoje começo a dar os primeiros pessoas na liderança de um projeto aberto e participativo de reposicionamento e transformação do Município de Évora enquanto seu Presidente eleito.
Nestas funções tem sido com naturalidade e satisfação que tenho assistido e participado em debates elevados e informados sobre algumas das opções que têm sido anunciadas, aprovadas e lançadas após amplo consenso nos órgãos municipais. É sinal que as propostas despertaram consciências e impulsionaram em muitos cidadãos ou organizações de cidadania a disposição ativa para serem parte das soluções e de contribuírem para o seu desenho final e estilhaçaram o consenso morno ancorado na modorra, na estagnação, na musealização da cidade e no triunfo da inércia confortável e instalada.
Não há transformação sem dor. O que é determinante é que o benefício comum a compense e a confluência de esforços a mitigue. Temos que ter vagar para respirar, debater e transformar. Para conseguir consensos em movimento e tornar a vida melhor.