Salão de Baile
Pelas funções que exerci, designadamente no meu segundo mandato como Membro do Parlamento Europeu, em que fui Copresidente da Assembleia Parlamentar Paritária África, Caraíbas, Pacífico / União Europeia e Relator Permanente do Parlamento Europeu para a Ajuda Humanitária, tive alguns contactos com as equipas de segurança mais sofisticadas do mundo.
Um exemplo, entre muitos outros, foi a odisseia de entrar no Pentágono, em que com a equipa de negociação que me acompanhava fui verdadeiramente passado a pente fino, tivemos que vencer várias barreiras e redundâncias até finalmente nos encontrarmos com os nossos interlocutores, alinhados com rostos fechados numa sala escurecida, em torno de uma Secretária de Estado que parecia a única pessoa normal na sala.
Pouco a pouco e à medida que cada um falava, os rostos abriam-se e transformavam-se. Depois de umas duas horas de conversa que foi gerando alguma empatia acabámos convidados a fazer uma breve visita a espaços reservados do Bunker e recuperámos carteiras, relógios e até telemóveis, embora sem conexão até abandonarmos o local.
Conto esta memória porque ela me ocorre sempre que nos dias de hoje vou vendo nos principais jornais americanos e depois na imprensa internacional documentos classificados, que aparentemente escaparam ao controlo do Pentágono e das agências de segurança americanas. O mesmo acontece com outras secretas conhecidas como invioláveis.
Enquanto Donald Trump vai colocando na agenda a prioridade geopolítica de construir um Salão de Baile na Casa Branca, a segurança internacional parece já estar num novo patamar de dança pública de informação e contrainformação, que torna cada vez mais complexo compreender e destrinçar o falso do verdadeiro no mundo em que vivemos.
Suspeito que também neste domínio estamos a viver um novo paradigma de caos mais ou menos organizado. Em vez do segredo estar no controlo das redes e da informação, passou a estar na inundação das nuvens de dados, criando contextos de desinformação que só podem ser descodificados por cifras específicas, mas baralham qualquer análise racional do que se possa está a passar.
Na geopolítica global há cada vez mais ruido e menos contenção. A perceção de risco é brutal. É neste contexto que o líder da ainda potência líder dá mais importância à construção de um Salão de Baile do que à segurança dos documentos trabalhados no Pentágono. Será que vai ser tão difícil entrar no Salão de Baile como era (não sei se ainda é) no Pentágono?